O Monólogo (parte 3)
Sinto-me tentado a continuar a contar-vos o decorrer dos meus dias depois de toda aquela agitação que surgiu dentro de mim. Não foram fáceis, e depois de pensar muito como habitualmente faço, decidi procurar ajuda e falar com alguém que me ajudasse a relembrar o meu sonho. Saí do meu apartamento e desci até à entrada do prédio. Fui vítima de um episódio curioso e apaixonante, minutos depois, durante a minha viagem de autocarro até a um consultório de psicologia bastante conhecido na cidade (cada vez que ouvia os meus colegas de trabalho a falar sobre o "magniíico consultório que nos ajuda a ultrapassar os nossos obstáculos", costumava perguntar-me se algum dia iria precisar de tal coisa. Ridicularizava-os mentalmente por acharem que iriam resolver os seus problemas com uma simples conversa com um desconhecido. Posso dizer-vos já que estava enganado). Mas enfim, vocês descobrirão o conteúdo desse episódio mais tarde.Fui finalmente atendido passadas duas horas e meia. Ao contrário da sala de espera, aquela divisão apertada era constituída por quatro paredes pretas. No centro, havia um sofá vermelho e um cadeirão castanho claro ao lado. Mal entrei, os meus olhos foram invadidos por uma mulher, bem constituída e elegante. Ela olhou-me por cima dos seus óculos rectangulares e sorriu.
- Boa tarde, senhor Kamen... Kamenwati - disse a doutora, com um tom de voz suave e sereno, soluçando pelo meio - Faça o favor de se sentar ao meu lado.
Lembro-me de ter pensado que aquela sala só iria deprimir ainda mais quem lá fosse. Mas um pouco inquieto, lá me deitei no sofá ao lado do cadeirão onde a doutora estava sentada (seguindo eu um estereotipo, ainda que ela me tivesse mandado sentar). Perguntei-me também se ela saberia o significado do meu nome. E espero que vocês, os grandes infelizes da descoberta, o vão pesquisar, pois tudo tem uma razão.
- Não, não. - disse ela, pousando a mão no meu braço esquerdo mal me deitei. - Não precisa de se deitar para já.
Sentei-me, virado para a doutora, e olhei para os olhos dela, através das suas lentes. Numa fracção de segundo pensei que estava a desperdiçar todo o meu dinheiro e que tudo aquilo iria ser em vão, mas esse meu pensamento foi interrompido pela perda de tempo da doutora.
- Diga-me o que vê aqui. - disse ela, depois de ter tirado uma folha A4 do seu bloco e ma ter entregue.
Olhei para o papel durante uns segundos. Dei uma olhada no seu lado contrário, e voltei à face original. Aproximei-o do meu olhar, virei-o ao contrário, elevei-o ao reflexo da luz, numa perspectiva que me permitisse visualizar algum contraste, mas nada. A folha estava em branco no seu completo. Olhei para a doutora, e reparei que ela tinha estado a olhar para mim o tempo todo, com um ar muito sério e compreensivo.
- Doutora, a folha está em branco... - disse eu.
- Estará? - respondeu ela.
- Definitivamente. - disse eu mais uma vez, depois de ter confirmado.
- Concorda com o facto dessa folha representar o seu actual estado de espírito? - perguntou-me.
- Não sei. - reflecti eu.
- Neste momento sente um vazio, seja ele qual for, e por qual razão seja. A sua primeira actividade comigo será preencher essa folha com o seu olhar. - explicou ela, enquanto eu suspirava. - Imagine um desenho, qualquer um, e depois vai fazer de conta que tem uma caneta na mão e vai começar a preencher a folha.
- Com todo o respeito, penso que prefiro falar do que desenhar. - disse-lhe eu. Nesta altura estava cem por cento convencido que tudo aquilo iria ser uma perda de tempo. Como seria uma psicóloga capaz de pegar no primeiro método generalizado que tem à mão quando não conhece o problema do seu paciente? O que será melhor do que palavras articuladas? Um desenho imaginário? Paredes pretas sem um único quadro abstracto que dê que pensar aos seus pacientes?
- Tudo bem, falaremos, desde que guarde a folha consigo, até ao dia em que não precisar de cá voltar. - respondeu ela, enquanto cruzava as suas pernas... maravilhosas.
- Tive um sonho, há duas noites atrás, e não me consigo lembrar dele. Soube o que sonhei na manhã da noite em que o tive, e lembrei-me do seu conteúdo na manhã seguinte. Mas nessas situações ele voltou por fracções de segundo, e desde então que não me consigo recordar dos seus pormenores nem no que consistia. - desabafei. - É por essa razão que cá estou. Quero saber o que sonhei.
- Se eu fosse uma psicóloga regular, iria tentar descobrir o que vai dentro de si, iria arranjar técnicas para desvendar o que está por trás de certas cortinas, e o que o impede de se lembrar desse sonho, para não falar no montante que iria chupar da sua carteira. - disse ela, a sorrir. - Mas não sou, e não há nada que eu possa fazer em relação ao seu problema. Com subconscientes eu não me meto.
Fiquei boquiaberto com aquela resposta, e o termo "chupar" fez-me sentir que o meu objectivo naquela consulta havia mudado. Quando voltei a mim, aproximei-me dela e coloquei a minha mão direita no seu braço. Com a constante do meu olhar, vi que ela olhou para a minha mão, mesmo antes de voltar a olhar para mim, surpresa.
- Não faz mal. - sussurrei-lhe eu ao ouvido. Beijei o pescoço dela, desviei um pouco a minha mão e comecei a despir o seu casaco preto.
Fotografia: Aldi AlMahdi

