1 de Novembro de 2009

O Monólogo (parte 3)

A folha branca.


Pergunto-me se alguém que conheça já se perguntou se valeria a pena ir ao psicólogo. E se a resposta tivesse resultados positivos, pergunto-me por que razão. Apenas sei que quando era mais novo, por volta dos meus doze anos, os meus pais, coitados, meteram-me num psicólogo educacional por eu não conseguir organizar o meu tempo e não conseguir estudar. Eu, inocente como era, pensava que falava com um anjo e que ele me iria ajudar a ultrapassar as minhas dificuldades e os meus medos. Falei-lhe sobre muitas coisas, sobre muitas situações, sobre muitos pensamentos, e sobre muitas teorias. Tudo isso e todas aquelas conversas para eu próprio me aperceber e reforçar a ideia de que era inteligente. E, provavelmente, seria eu inteligente demais para a capacidade daquela coitada alma: passado uns meses, a psicóloga decidiu dizer-me que eu era o único paciente dela que não tinha conseguido progredir, e que não sabia o que fazer mais.

Sinto-me tentado a continuar a contar-vos o decorrer dos meus dias depois de toda aquela agitação que surgiu dentro de mim. Não foram fáceis, e depois de pensar muito como habitualmente faço, decidi procurar ajuda e falar com alguém que me ajudasse a relembrar o meu sonho. Saí do meu apartamento e desci até à entrada do prédio. Fui vítima de um episódio curioso e apaixonante, minutos depois, durante a minha viagem de autocarro até a um consultório de psicologia bastante conhecido na cidade (cada vez que ouvia os meus colegas de trabalho a falar sobre o "magniíico consultório que nos ajuda a ultrapassar os nossos obstáculos", costumava perguntar-me se algum dia iria precisar de tal coisa. Ridicularizava-os mentalmente por acharem que iriam resolver os seus problemas com uma simples conversa com um desconhecido. Posso dizer-vos já que estava enganado). Mas enfim, vocês descobrirão o conteúdo desse episódio mais tarde.

Fui finalmente atendido passadas duas horas e meia. Ao contrário da sala de espera, aquela divisão apertada era constituída por quatro paredes pretas. No centro, havia um sofá vermelho e um cadeirão castanho claro ao lado. Mal entrei, os meus olhos foram invadidos por uma mulher, bem constituída e elegante. Ela olhou-me por cima dos seus óculos rectangulares e sorriu.

- Boa tarde, senhor Kamen... Kamenwati - disse a doutora, com um tom de voz suave e sereno, soluçando pelo meio - Faça o favor de se sentar ao meu lado.

Lembro-me de ter pensado que aquela sala só iria deprimir ainda mais quem lá fosse. Mas um pouco inquieto, lá me deitei no sofá ao lado do cadeirão onde a doutora estava sentada (seguindo eu um estereotipo, ainda que ela me tivesse mandado sentar). Perguntei-me também se ela saberia o significado do meu nome. E espero que vocês, os grandes infelizes da descoberta, o vão pesquisar, pois tudo tem uma razão.

- Não, não. - disse ela, pousando a mão no meu braço esquerdo mal me deitei. - Não precisa de se deitar para já.

Sentei-me, virado para a doutora, e olhei para os olhos dela, através das suas lentes. Numa fracção de segundo pensei que estava a desperdiçar todo o meu dinheiro e que tudo aquilo iria ser em vão, mas esse meu pensamento foi interrompido pela perda de tempo da doutora.

- Diga-me o que vê aqui. - disse ela, depois de ter tirado uma folha A4 do seu bloco e ma ter entregue.

Olhei para o papel durante uns segundos. Dei uma olhada no seu lado contrário, e voltei à face original. Aproximei-o do meu olhar, virei-o ao contrário, elevei-o ao reflexo da luz, numa perspectiva que me permitisse visualizar algum contraste, mas nada. A folha estava em branco no seu completo. Olhei para a doutora, e reparei que ela tinha estado a olhar para mim o tempo todo, com um ar muito sério e compreensivo.

- Doutora, a folha está em branco... - disse eu.
- Estará? - respondeu ela.
- Definitivamente. - disse eu mais uma vez, depois de ter confirmado.
- Concorda com o facto dessa folha representar o seu actual estado de espírito? - perguntou-me.
- Não sei. - reflecti eu.
- Neste momento sente um vazio, seja ele qual for, e por qual razão seja. A sua primeira actividade comigo será preencher essa folha com o seu olhar. - explicou ela, enquanto eu suspirava. - Imagine um desenho, qualquer um, e depois vai fazer de conta que tem uma caneta na mão e vai começar a preencher a folha.
- Com todo o respeito, penso que prefiro falar do que desenhar. - disse-lhe eu. Nesta altura estava cem por cento convencido que tudo aquilo iria ser uma perda de tempo. Como seria uma psicóloga capaz de pegar no primeiro método generalizado que tem à mão quando não conhece o problema do seu paciente? O que será melhor do que palavras articuladas? Um desenho imaginário? Paredes pretas sem um único quadro abstracto que dê que pensar aos seus pacientes?
- Tudo bem, falaremos, desde que guarde a folha consigo, até ao dia em que não precisar de cá voltar. - respondeu ela, enquanto cruzava as suas pernas... maravilhosas.
- Tive um sonho, há duas noites atrás, e não me consigo lembrar dele. Soube o que sonhei na manhã da noite em que o tive, e lembrei-me do seu conteúdo na manhã seguinte. Mas nessas situações ele voltou por fracções de segundo, e desde então que não me consigo recordar dos seus pormenores nem no que consistia. - desabafei. - É por essa razão que cá estou. Quero saber o que sonhei.
- Se eu fosse uma psicóloga regular, iria tentar descobrir o que vai dentro de si, iria arranjar técnicas para desvendar o que está por trás de certas cortinas, e o que o impede de se lembrar desse sonho, para não falar no montante que iria comer da sua carteira. - disse ela, a sorrir. - Mas não sou, e não há nada que eu possa fazer em relação ao seu problema. Com subconscientes eu não me meto.

Fiquei boquiaberto com aquela resposta, e o termo "comer" fez-me sentir que o meu objectivo naquela consulta havia mudado. Quando voltei a mim, aproximei-me dela e coloquei a minha mão direita no seu braço. Com a constante do meu olhar, vi que ela olhou para a minha mão, mesmo antes de voltar a olhar para mim, surpresa.

- Não faz mal. - sussurrei-lhe eu ao ouvido. Beijei o pescoço dela, desviei um pouco a minha mão e comecei a despir o seu casaco preto.

Fotografia: Aldi AlMahdi

30 de Outubro de 2009

O Monólogo (parte 2)

O subconsciente.


Será uma história suficiente para mostrar aquilo que não existe? Será um autor capaz de inventar aquilo que não existe na realidade e que não pode ser inventado? Das duas uma, ou ele conhece a realidade no seu completo e todas as outras pessoas desconhecem aquilo que ele conhece, ou simplesmente tenta e falha. Se fosse falhar, não me daria ao trabalho de tentar.

Escrevo esta carta para vos poder começar a explicar toda a razão da existência. Sei como mudar a razão, sei como alterar a lógica, sei como manipular os sentimentos, sei utilizar o meu subconsciente quando quero, e sei reflectir e tomar decisões durante um sonho inteiro. O segredo? Mais fácil e alcançável do que qualquer outra coisa. Para o descobrir, é apenas preciso pensar, mendigar, compreender, compor, escrever, supor, lamber, e saber sermos rudes com aqueles que mais gostamos. Mas já estou por tudo. Dir-vos-ei o segredo, e quem tiver a infeliz sorte de encontrar este pequeno anotamento e todos os outros que irei escrever, que estão e vão ser escondidos num buraco escondido da parede falsa da minha casa de banho, terá o maior problema da sua vida: como usar o conhecimento.

Há duas semanas acordei, às seis e um quarto da manhã, pronto para ir trabalhar para o meu minúsculo e infeliz cubículo. Olhei em volta e consegui, com a mais leve e suave luz do amanhecer, olhar para os prédios que cercam o meu. Poucas luzes acesas, a maioria do vigésimo terceiro andar. Foi um acordar diferente. Já a noite passada tinha sido um tanto curiosa, e esta veio apenas esclarecer a minha mente. Fiquei sentado na cama durante uns segundos, e abri os olhos por completo. Olhei mais uma vez em volta, com maior atenção. Apercebi-me que não havia sonhado nessa noite, mas senti que tinha mais conhecimento do que com aquele com que adormeci. (Para que percebam melhor, na manhã passada acordei e o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi que tinha acabado de sonhar algo muito importante. Sonhei sobre algo, sobre algo muito relevante, que me fez aperceber que tinha que partilhar tudo aquilo e libertar-me de toda a minha pressão interior. Sonhei com a razão de toda a existência, e com tudo aquilo que precisava de saber para ser o verdadeiro Deus. Sonhei com todas as respostas para as minhas perguntas. No entanto, cambaleei para o banho e não voltei a pensar nisso. Hoje, e nesse mesmo dia mais tarde, só me conseguia lembrar de ter pensado na minha reacção ao sonho, naquilo que pensei face ao que havia sonhado. E o sonho? Sumiu-se da minha memória e passei esse mesmo dia com um toque de frustração, a tentar tudo para me conseguir lembrar.) Sentindo toda aquela inquietação, lembrei-me. Lembrei-me do sonho da noite passada, lembrei-me dos episódios nítidos como os vi, e lembrei-me também que na altura, durante o sonho, sabia que estava a sonhar. Lembrei-me de tudo, e o excesso de informação e o perder de todas as ideias levaram-me à loucura psíquica nos dias seguintes.

As palavras escapam-se-me por entres os dedos, como se elas não quisessem ser agarradas. Escapam-se-me como se eu próprio não as quisesse organizar, como se eu não quisesse pensar e decidir como transmitir a mensagem mais fácil de todas.

Fotografia: Michal Bohdankiewicz

27 de Outubro de 2009

O Monólogo (parte 1)

Os fios do meu cérebro.


Vim para casa a falar comigo mesmo. Caminhei pela escuridão, olhei para as plantas que se moviam em sintonia com o meu passo, e fui dizendo umas poucas coisas. Fiz um poema, um tanto grande, com pouca rima, mas que tinha tudo aquilo que precisava. Sem fim, vim a falar e continuei a dizer aqueles versos que não paravam de sair pela minha boca, tão bem compostos, tão bem escolhidos, tão vindos do profundo da inspiração. Soube que se continuasse a escreve-lo para o ar, não iria parar, e ia conseguir chegar a casa a tempo de começar a escrever a continuação. Fiquei com pena de começar já tão tarde. E o desenrolar foi apenas o final daquilo que gostava de te dizer e que soubesses que sei. Não ficou nada que valesse a pena mostrar ou talvez guardar. Fiquei perdido, fechei os olhos, e imaginei certas e determinadas coisas. Voltei a endireitar-me e preferi escrever uma prosa, uma história, mais uma representação cénica daquilo que vai acontecendo.

Com os olhos fechados, com uma dor de cabeça enorme, e vindo de uma viagem longa e inconsciente, estou agora a escrever no meu apartamento minúsculo, onde eu e só eu vivo. Onde todos os dias acordo cheio de sede e consigo olhar em volta para o vazio. Viajei para quadros coloridos, cheios de história, e talvez imagináveis. Senti conforto e não me conseguia lembrar de segundos anteriores. Não me conseguindo lembrar de segundos anteriores, pouco me conseguiria lembrar de tudo o resto, todo aquele passado (e presente) que se vai juntando e me vai tirando o sorriso e a boa vontade do íntimo. Alimento-me desta peça de fruta que vou pousando de tempos a tempos, junto a este papel minúsculo que consegui arranjar no trabalho. Escrevo talvez para me esquecer que hoje à tarde volto para o meu trabalho, para aquele cubículo cheio de placards e papeis informativos. Ontem tentei escrever mil e uma vezes, deitei muito papel fora, e todos aqueles textos davam para um grande livro cheio de sentimentos, a cada palavra. Talvez um livro magnífico e o mais diversificado possível, que poderia até ser editado sem qualquer obstáculo, mas que simplesmente está solto demais e não representa metade daquilo que não te disse.

Já pensei na vida e no seu cenário como negativos. Os olhos conseguem formatar as cores e é assim que as vemos, sem saber se elas representam a realidade ou não. Como flores que podem ser venenosas, e que de tão habituados estamos a elas, que deixam de fazer o seu efeito. Talvez seja assim. Lembro-me de ter lido uns textos meus antigos, lembro-me de, por alguma razão, voltar a sentir aquele gosto pelas palavras, tão sem significado à partida, mas cheias de verdade lá no fundo. Não gosto de ler esse tipo de composições, mas adoro fazê-las. Metáforas contínuas, sinónimos que por vezes se tornam em antónimos e que no fim ninguém consegue perceber aquilo que o autor quer realmente transmitir. No fim não se consegue perceber exactamente aquilo que ele queria dizer, mas o facto de parecer tão real faz as pessoas gostarem da obra. Não sei escrever, já não sei escrever, os sentimentos continuam a nadar dentro de mim e eu continuo a inventar histórias para os representar, como há uns anos atrás comecei a fazer. Nunca transmiti uma ideia, apenas um sentimento, e não sei se o estarei a fazer bem agora. Será preciso atribuir-lhe um adjectivo para que as pessoas consigam perceber? E se eu dissesse que este talvez seja a minha história mais complexa e representativa que escrevi até hoje? Pensar nas palavras no seu sentido contrário, atribuir-lhes uma rotina diferente ou idêntica, nunca se saberá, nem nunca ninguém conseguirá saber exactamente o que eu estou a escrever neste momento. Sei que este pedaço de papel vai ser encontrado daqui a muitos anos, por alguma criança, ou não, mas sei que o vou colocar num buraco escondido na parede falsa da minha casa de banho e vai permanecer lá até eu já não existir. Toda a gente irá perguntar "Porque é que ele escreveu isto e o que é que ele estava a sentir?".

Faz tempo que escrevi aqui, mas vá.

Fotografia: Jure Dolzan

6 de Dezembro de 2008

A cor do pesadelo (parte 4)


Um coelho, outro feito em pó, e mais outro simplesmente estendido no chão.

Um homem bem constituído, com dois metros, saiu por uma porta luminosa, que por sua vez se fechou atrás de si. O homem depara-se então com uma sala circular. Por sua vez, a sala não apresenta qualquer decoração, nem sequer um único candeeiro. Ao invés, a sala tem três tochas luminosas, que realçam o tom azul do chão, das paredes (circulares) e do tecto. Essas três tochas dividem entre si o espaço entre as três portas que se encontram na sala circular, como se estas formassem um triângulo.

O homem não está nem um pouco curioso com o que se encontra para lá daquelas portas, nem o que é exactamente aquela sala, visto que ele próprio está habituado a viver dentro dele próprio. Mas, sem qualquer demora, uma das portas à sua frente abre-se, e, do ambiente branco que se encontra para lá da mesma, sai uma rapariga nova, bonita, e atraente. A rapariga não hesita e sauda o homem com um sorriso simpático, mas também desconfiado. E, logo de imediato, a outra porta abre-se e tanto a rapariga como o homem conseguem visualizar um cemitério envolto em trigo. De lá, sai um rapaz com uma expressão facial bastante curiosa e rara: um misto de surpresa com tristeza.

Três pessoas. Três portas. Três tochas. Uma só sala.

- Estamos no céu? - perguntou a rapariga.
- Eu estou onde sempre estive - respondeu o homem.
- Eu também gostava de estar no céu - reflectiu o rapaz.

Dez razões. Dez razões para se acreditar que aquilo que outrora fizeram não será posteriormente punido, nem tão pouco recompensado.

21 de Outubro de 2008

Lâmpada cintilante

Passei a estar sentado numa sala de aula localizada no segundo andar de uma escola secundária, numa cidade fantasma. Fazem agora trinta minutos que estou sentado nesta cadeira, junto à entrada da sala. As paredes, agora degradadas, aparentam terem sido testemunhas de muita diversão, conhecimento e amizade. Vejo também, mas com dificuldade, pedaços de papel no chão. A luz natural à minha volta não é muita, ainda que as janelas estejam partidas. Lá fora, a tarde de verão é fria e ventosa. As nuvens cinzentas passam a grande velocidade e eu só tenho tempo de ver poeira e solidão entre elas. Estou a ter bastante dificuldade em descrever o que vejo, mas digo com certeza que algo não está bem aqui. Lá fora, existem também edifícios degradados, assim como esta escola está. Ninguém passeia nas ruas. O ambiente está negro, pobre e solitário.

Decidi tentar acender a luz da sala de aula. Peguei nos dois fios do interruptor e juntei-os, com esperança que estes transmitissem electricidade entre si. Mas nada aconteceu. Olhei uma vez mais lá para fora e lamentei a situação. Saí da sala de aula, para o grande corredor daquele andar, e algo atrás de mim começou a cintilar. Era uma das lâmpadas da sala de aula. Voltei-me e fiquei a olhar para aquela improbabilidade.

Pestanejei e, de súbito, ficou tudo normal. Haviam alunos a passear por aquele corredor e agora havia uma porta à minha frente, que escondia um grande reboliço. De certa forma fiquei feliz por saber que não fiquei preso naquele mundo. Fiquei também com vontade de passar à frente.

9 de Setembro de 2008

Leite com café

Há uma certa rotina dentro do meu estômago. Ouvir música e passear na minha mente ao mesmo tempo pode ser perigoso, principalmente quando as vibrações e as ideias nos levam à origem das memórias. E se ouvir uma música é perigoso, então mudar drasticamente de ambiente sonoro é morte certa. Imaginem uma rotina ser invadida por outra, numa questão de segundos. Imaginem serem levados a cinco mil quilómetros de um sítio para o outro.

7 de Setembro de 2008

Life in Technicolor

A minha inspiração voltou. O meu coração renasceu, depois de uma queda tão íngreme. Agora só falta saber se a Miss McLock me deixa voltar a cruzar pensamentos.

28 de Abril de 2008

The End

Não é o fim. É apenas uma reflexão acerca da existência deste blog. Decidimos acabar (por esta página), apenas porque as nossas palavras (e tempo) não se encaixam perfeitamente no espírito do nosso Crossing. Para sempre nosso. Porque o Crossing só faz sentido por ser o nosso cantinho, de dois amigos e de um abraço.
Este não é, pois, um post de despedida: iremos continuar a escrever, sempre. Nos nossos cadernos, nas nossas folhas soltas ou nos guardanapos, com o porta-minas de sempre ou com a caneta que já mal escreve, mas que ainda assim é suficiente para (nos) expressar.
Irão surgir novos blogues, de certeza. E a maior certeza estará sempre por aqui: a de que cruzar pensamentos faz bem.

Obrigada
a todos por todos os comentários: por todas essas palavras que nos reconfortaram, que nos fizeram pensar e sorrir.

25 de Março de 2008

(Ex/ins(pira))

(Inspira)
Um misto de histórias coloridas ia ganhando forma à minha frente, assim, como se os suspiros se compusessem de olhares infinitos. Tinha tempo (e espaço) para me encontrar, para sentir o leve sobre os ombros.
Lá fora, chovia. Chovia incessantemente. Chovia aqui, ali, além e cada vez mais longe. O vento dançava arrastando consigo as gotas imensas. Rodopiava, ia para a frente e voltava para trás. E chovia.
(Expira)
O vento fechou a porta. Saltei na cadeira e o livro caiu ao chão. Porque o vento fechou a porta.
(Inspira)
Apanhei o livro e atentei na melodia que bailava majestosamente pelas paredes verdes.
Fazes muito mais que o Sol.
O Sol deve ter adormecido no seu (já extenso) intervalo de fechar de olhos. As nuvens cinzentas desciam lentamente, mas não as via. O livro era leve e sentia-o sobre os ombros. Ah, era leve... Era leve e havia letras, havia tempo, havia Tempo e havia espaço para me encontrar.
(Expira)
Peguei no marcador vermelho pintei-o no momento em que parei de caminhar naquele livro. Fechei-o. Levantei-me, desci as escadas a correr.
Lá em cima, ainda se ouvia uma canção de dentro, de coração, de abraços.
Que aqui está frio demais para me sentir...
(Inspira)
Agora, abro a porta pesada que dá para a rua e para o (de(?)mais) frio. É Inverno, ainda é Inverno. É leve... Fecho os olhos.
(Expiro e volto a inspirar)

(Itálicos: Tiago Bettencourt & Mantha - Canção Simples e O Jogo)

3 de Fevereiro de 2008

Até amanhã

A casa ainda dorme. Talvez o céu, aluado como é, tenha entrado pela chaminé e escurecido cada cantinho.

Talvez não se ouça qualquer passo do outro lado da janela, talvez a chuva não caia nas pedras da rua. Talvez o movimento das formigas e das aranhas seja imperceptível, talvez mudo. Sei que a casa ainda dorme.

É possível que o céu, aluado como é, tenho trazido consigo as estrelas. As estrelas, que fazem histórias (de brilho), que fazem brilho (de histórias) e que sussurram ao ouvido mãos cheias de olhos fechados de sorrisos. Porque a casa ainda dorme…

O relógio, aquele antigo, está na mesinha-de-cabeceira e nem os seus segundos, barulhentos no dia da casa, se fazem ouvir na escuridão. Talvez o tempo tenha parado. Talvez a casa ainda durma.

Sim, a casa ainda dorme. Os livros, na estante alta, não escrevem as sombras do dia da casa, ou da noite. A casa ainda dorme…

Talvez tudo e todos estejam de olhos fechados para o tempo, para os segundos do relógio barulhento ou para as gotas de chuva que caem lá fora, nas pedras da rua. Talvez. A casa ainda dorme. O céu, aluado como é… E as estrelas… Talvez tenham parado o tempo. Talvez tenham fechado os olhos ao ponteiro dos segundos, porque a casa ainda dorme. Respira. Respira. Vive. Um segundo de olhos fechados para o ponteiro. A dormir. A alcançar as estrelas…

Dorme. Até amanhã.